Toda vez que a pergunta aparece num grupo de professores, a resposta vem no mesmo formato: alguém diz o próprio preço, outra pessoa diz que é caro, uma terceira diz que é barato, e ninguém sai dali sabendo o que fazer. O problema é que preço de aula particular não é uma tabela. É uma conta, e ela tem quatro números.
O primeiro número: quantas horas você consegue vender
Não é quantas horas você tem. É quantas horas alguém quer.
Aula particular acontece na janela em que o aluno está livre: entre 7h e 8h da manhã, entre 12h e 13h, e das 18h às 21h. Somando fim de semana, um professor em tempo integral vende entre 20 e 28 horas por semana. Quem dá aula como segunda renda vende entre 6 e 12.
Escreva o seu número. Ele é o teto do seu faturamento, e quase todo mundo o superestima.
O segundo número: o tempo que você trabalha sem receber
Uma aula de 60 minutos custa muito mais que 60 minutos:
- procurar e preparar material: 15 a 30 minutos
- corrigir tarefa e responder mensagem: 10 a 20 minutos por aluno, por semana
- remarcar, confirmar, lembrar: 5 minutos que sempre viram 20
- cobrar, conferir Pix, mandar recibo: uma tarde inteira por mês
Uma pesquisa informal em qualquer grupo de professor mostra a mesma proporção: para cada hora dada, existe entre meia hora e uma hora de trabalho não faturado. Se você ignora esse tempo, você não está cobrando por aula. Está cobrando por aula e trabalhando de graça no resto.
O terceiro número: o seu custo por hora
Some tudo que sai da sua conta por causa da aula, por mês:
| Item | Valor típico por mês |
|---|---|
| Internet e telefone | R$ 120 |
| Plataforma de aula, materiais, cópias | R$ 60 a R$ 150 |
| Deslocamento, se atende presencial | R$ 150 a R$ 500 |
| Formação continuada, livros, cursos | R$ 100 |
| Imposto, se MEI | cerca de R$ 76 |
Divida o total pelas horas vendáveis do mês. Esse é o piso absoluto: abaixo dele, cada aula dada tira dinheiro do seu bolso.
O quarto número: o quanto você quer ganhar
Aqui entra a parte que professor tem dificuldade de dizer em voz alta. Escolha um valor mensal líquido. Some o custo. Divida pelas horas vendáveis realistas do mês. Some de 20 a 30 por cento pelo tempo invisível da segunda seção.
Um exemplo fechado, para o número sair do abstrato:
- meta líquida: R$ 5.000
- custo mensal: R$ 700
- horas vendáveis realistas: 80 por mês (20 por semana)
- (5.000 + 700) dividido por 80 = R$ 71 por hora
- somando 25 por cento de tempo invisível: R$ 89 por hora
Arredonde para R$ 90. Esse é o seu preço, e ele não tem nada a ver com o que o professor do grupo do WhatsApp cobra.
Onde a faixa de mercado entra
Ela entra depois, como termômetro, não como régua. Em 2026, aula particular de inglês online no Brasil circula entre R$ 60 e R$ 140 a hora, com reforço escolar de fundamental mais perto de R$ 50 a R$ 80 e preparação para exame de proficiência ou aula para executivo passando de R$ 150.
Se a sua conta deu muito acima da faixa, o problema não é o preço: é o número de horas vendáveis, que provavelmente está baixo demais. Se deu muito abaixo, você está subsidiando o aluno.
Preço baixo não traz mais aluno. Traz aluno que some quando aparece alguém dez reais mais barato. Quem compra por preço nunca é fiel ao preço, é fiel ao próximo preço.
Quatro formas de cobrar mais sem aumentar a hora
- Venda pacote, não aula avulsa. Oito aulas pagas na frente resolvem a sua previsibilidade e a assiduidade do aluno de uma vez.
- Cobre a hora cheia mesmo em aula de 50 minutos. É o padrão de consultório, de estúdio e de terapia, e ninguém estranha.
- Tenha uma política de cancelamento escrita. Cancelou com menos de 24 horas, a aula conta. Sem isso, o seu preço é uma sugestão.
- Cobre pelo que está em volta. Correção de redação, relatório para os pais, material personalizado: ou está no preço, ou é um serviço à parte.
Quando e como reajustar
Uma vez por ano, sempre no mesmo mês. Janeiro e agosto funcionam bem, porque coincidem com a virada de semestre e o aluno já espera mudança.
Avise com 30 dias de antecedência, por escrito, com uma frase só: "A partir de março o valor da hora passa a ser R$ 95. Continuo com o mesmo horário reservado para você." Não peça desculpa e não explique inflação. Quem vai embora por 10 por cento já estava indo embora por outro motivo.
O erro que custa mais caro que o preço errado
É não saber quanto se ganhou. Professor que anota aula em caderno e pagamento na memória descobre o próprio faturamento com três meses de atraso, e quase sempre para menos.
Antes de discutir preço, tenha o número. Quantas aulas você deu no mês passado, quanto entrou, quem ainda não pagou. Com esses três dados na tela, a conversa sobre preço deixa de ser opinião.