Todo professor já montou um plano de aula caprichado, com objetivo, competência e avaliação, usou uma vez e nunca mais. O motivo não é preguiça. É que o formato foi desenhado para escola, com coordenação para prestar contas, e aula particular não tem coordenação: tem um professor cansado às onze da noite decidindo o que fazer amanhã.
O modelo abaixo tem quatro blocos, cabe em meia página e é rápido o bastante para você realmente usar.
Bloco 1: de onde a gente parou
Duas linhas. O que foi visto na última aula, o que ficou de tarefa, e o que o aluno errou e vale retomar.
Sem esse bloco, os primeiros dez minutos de toda aula viram arqueologia. Com ele, a aula começa andando.
"Aula passada: past simple com verbos irregulares. Tarefa: 8 frases. Erra sempre 'go' e 'buy'. Retomar no aquecimento."
Bloco 2: o que ele sai sabendo hoje
Uma frase, começando com um verbo de ação, e no nível do aluno, não do conteúdo:
- ruim: "trabalhar o present perfect"
- bom: "contar uma experiência de viagem usando 'I have been to'"
A diferença importa porque a segunda versão já contém a atividade e já contém como saber se deu certo. A primeira só nomeia um assunto.
Se você não consegue escrever essa frase, a aula ainda não está planejada.
Bloco 3: os três tempos
Aula particular de 50 a 60 minutos cabe bem em três partes:
| Tempo | O quê | Duração |
|---|---|---|
| Aquecimento | retomar o erro da aula passada, atividade de fala curta | 10 min |
| Núcleo | o objetivo do bloco 2, com prática guiada | 30 min |
| Fechamento | o aluno usa sozinho, tarefa combinada | 10 a 15 min |
O fechamento é o que quase todo mundo corta quando o tempo aperta, e é o mais importante: é o único momento em que dá para ver se ele aprendeu de verdade ou só acompanhou você.
Bloco 4: o plano B
Uma linha, com duas saídas:
- se render antes: o que fazer com os dez minutos que sobrarem
- se travar: onde você recua, geralmente para uma versão mais simples da mesma coisa
Sem plano B, aula que trava vira improviso, e improviso com aluno travado quase sempre vira aula de gramática, que é justamente o que não estava funcionando.
Um plano inteiro, escrito
Aluno: Camila, B1, terça 19h De onde paramos: past simple ok. Confunde "been" e "gone". Hoje ela sai sabendo: contar três experiências de viagem com present perfect, sem confundir been e gone. Aquecimento (10): um minuto sem parar sobre "a última viagem". Núcleo (30): contraste been/gone com exemplos dela; 10 frases sobre a própria vida; correção no fim. Fechamento (15): ela conta uma viagem inteira sem interrupção. Tarefa: áudio de 1 minuto no WhatsApp. Plano B: se travar, volta para "have you ever...?" em pergunta e resposta.
Isso leva doze minutos para escrever e resolve a aula inteira.
O que fazer com o plano depois da aula
Duas linhas no fim, ainda com a aula fresca: o que funcionou e o que não funcionou. Esse é o registro que vale ouro três meses depois, quando o aluno pergunta se está evoluindo e você precisa mostrar de onde ele saiu.
Onde o plano deve morar
No mesmo lugar do aluno. Plano em caderno é perdido, plano em bloco de notas do celular é ilocalizável, plano em pasta do computador não abre quando você está dando aula pelo tablet.
Quando o planejamento fica junto do cadastro do aluno, com o histórico e os materiais anexados, a pergunta "o que a gente estava fazendo mesmo?" desaparece. E o tempo que você gastava reconstruindo isso, toda semana, volta para você.